Tem uma frase que ouço com frequência quando converso com moradores do Sarandi, da Mathias Velho, do Navegantes: "antes das enchentes" e "depois das enchentes". Como se houvesse um corte, uma linha divisória no tempo. E de certa forma há.

Dois anos depois de maio de 2024, Porto Alegre ainda está se reconstruindo — não apenas fisicamente, mas em termos de narrativa, de identidade, de entendimento do que é e do que quer ser. Passei as últimas semanas conversando com moradores, urbanistas, gestores públicos e ativistas para tentar entender onde estamos.

O que foi feito

Os números da reconstrução são, dependendo de como você os lê, impressionantes ou insuficientes. Mais de 40 mil famílias receberam alguma forma de auxílio habitacional. Cerca de 60% das vias afetadas foram recuperadas. O sistema de drenagem do Arroio Dilúvio passou por obras emergenciais.

Mas o que os números não mostram é a qualidade do que foi feito. Em vários bairros, a reconstrução foi rápida demais para ser boa. Ruas foram asfaltadas sobre base comprometida. Casas foram reformadas sem que as causas estruturais da vulnerabilidade fossem endereçadas.

O que não mudou

O que me preocupa mais, dois anos depois, é o que não mudou. A cidade ainda tem 30% de sua área em zonas de risco de inundação. O Plano Diretor, aprovado em 2023 às vésperas das enchentes, ainda permite construção em várias dessas áreas. O sistema de alertas ainda depende de voluntários e de uma infraestrutura de comunicação que falhou em 2024.

Conversei com a urbanista Marcia Oliveira, que participou do grupo de trabalho de reconstrução. "Fizemos o que era possível fazer com os recursos e o tempo que tínhamos", ela diz. "Mas a janela de oportunidade para mudanças estruturais está se fechando. Daqui a dois anos, ninguém vai mais querer falar sobre isso."

As pessoas

O que mais me ficou dessas semanas de reportagem não foram os dados ou as obras. Foi uma conversa com seu Waldir, 71 anos, morador do Sarandi há 40 anos, que perdeu tudo em 2024 e reconstruiu com a ajuda dos filhos e dos vizinhos.

"A enchente foi horrível", ele disse. "Mas eu aprendi que tenho vizinhos que eu não conhecia. Isso não tem preço." Há algo de Porto Alegre nessa frase — uma resiliência que é real, mas que não pode ser usada como desculpa para não fazer o que precisa ser feito.