Eu soube pela vizinha. Ela passou na minha porta na semana passada com um livro na mão e uma expressão que eu não sabia interpretar. "A Meridional vai fechar", ela disse. "Você sabia?"

Não sabia. Fui até lá no mesmo dia.

A Livraria Meridional fica numa esquina do Moinhos de Vento desde 1987. Trinta e nove anos. Passou por três donos, duas reformas, uma enchente pequena em 1998 e uma pandemia. Não passou pelo e-commerce.

O que uma livraria é

Tem uma coisa que as livrarias fazem que os algoritmos não conseguem replicar: elas te mostram o que você não sabia que queria. A recomendação do vendedor que te conhece há anos. O livro na pilha de "novidades" que você pega só porque a capa te chamou. A conversa que começa com "você gostou desse?" e termina com você saindo com três livros que não estavam no plano.

Conversei com Seu Augusto, 68, que comprou livros na Meridional toda semana por 30 anos. "Eu sei o nome de todos os funcionários", ele disse. "Eles sabem o que eu gosto. Isso não existe na internet."

Os números e o que eles não dizem

O dono atual, Paulo Ferreira, 54, não quer falar muito sobre os motivos. "Aluguel, custos, a mudança no comportamento das pessoas", ele resume. "Não tem uma causa só."

O que ele não diz, mas que os números do setor dizem, é que o Brasil perdeu quase 40% de suas livrarias independentes nos últimos dez anos. O que fecha não são apenas lojas — são pontos de encontro, de descoberta, de comunidade.

A Meridional fecha no dia 31 de julho. Até lá, tudo com 30% de desconto.