Ana Beatriz tem 27 anos, formação em agronomia pela UFRGS e uma propriedade de 18 hectares em Garibaldi, na Serra Gaúcha, que herdou dos avós. Ela poderia ter ficado em Porto Alegre — tinha emprego numa consultoria agrícola. Escolheu voltar.

"Meu avô plantava uva da mesma forma que o pai dele plantava", ela diz. "Eu quero plantar uva de um jeito que meu filho vai poder melhorar."

Uma geração diferente

Ana Beatriz não é um caso isolado. Pesquisa do Senar-RS identificou um crescimento de 34% no número de jovens entre 18 e 35 anos que assumiram propriedades rurais no estado nos últimos cinco anos. Muitos têm formação superior — agronomia, veterinária, administração, até engenharia de dados.

O que os diferencia da geração anterior não é apenas a formação. É a relação com a tecnologia, com o mercado e com a própria identidade de agricultor.

Tecnologia como ferramenta, não como fim

Mateus, 31, produtor de arroz em Cachoeirinha, usa drones para monitorar suas lavouras e um aplicativo de gestão que integra dados climáticos, preços de mercado e custos de produção. "Meu pai tomava decisões pelo feeling. Eu tomo pelo dado. Mas o feeling ainda conta — ele conhece essa terra há 40 anos."

Essa combinação — tecnologia mais conhecimento tradicional — parece ser a marca da nova geração. Não é uma ruptura com o passado, mas uma reinterpretação.

Os desafios que permanecem

Nem tudo é otimismo. O acesso a crédito para jovens agricultores ainda é burocrático e lento. A infraestrutura rural — estradas, internet, saúde — ainda é precária em muitas regiões. E a pressão fundiária, especialmente nas áreas de maior valorização, torna difícil para jovens sem herança familiar entrar no setor.

"O maior problema não é a tecnologia nem o mercado", diz a pesquisadora Carla Fontana, da Emater-RS. "É que muita gente ainda acha que ser agricultor é uma segunda opção. Enquanto isso não mudar, vamos continuar perdendo jovens para a cidade."